Análise: Nise, O Coração da Loucura por Rafael Cunha

Por Rafael Cunha

1946. Nasce a “Seção de Terapêutica Ocupacional” no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro. Este é o ponto histórico que conduz todo o roteiro de Nise: O coração da loucura, filme nacional com direção de Roberto Berliner (produtor de Bruna Surfistinha) e a presença instigante de Glória Pires no papel da renomada médica psiquiatra brasileira que dá título ao filme. Conduzido de forma poética, Roberto nos apresenta uma história emocional que discorre sobre o ser humano de uma forma encantadora e reveladora.

Nise da Silveira foi uma das primeiras mulheres a formar-se em medicina no Brasil nos anos 20, estagiou em um clínica neurológica, área a qual se dedicou e começou realmente a trabalhar ao ser aprovada em um concurso para psiquiatria em 1933. Ao ser denunciada por uma enfermeira pela posse de livros marxistas, Nise foi presa por sua ligação com o comunismo em 1936, após dezoito meses presa, Nise permanece afastada da área por um bom tempo, até mudar-se para o Rio de Janeiro, quando em 1944 retorna ao serviço público, reiniciando seu trabalho no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, o ponto de partida para a história contada por Roberto Berliner.

Gloria Pires dá vida a uma corajosa mulher que ao integrar a equipe de médicos do Centro Psiquiátrico, percebe-se minimizada pelos colegas de trabalho, que defendem técnicas agressivas com eletrochoques para tratamento dos pacientes da instituição, ao recusar tais procedimentos, Nise fica responsável pela terapia ocupacional, antes totalmente abandonada pela diretoria do Centro, a área ganha cor e encanto, Nise transforma a vida dos pacientes, que passam a ser chamados de clientes, e em breve, tornam-se grandes artistas plásticos reconhecidos nacionalmente, revolucionando os tratamentos ocupacionais tradicionais.

As áreas antes ocupadas com sucatas em um ambiente sem higiene, totalmente insalubre para a manutenção da vida saudável dos pacientes, Nise transforma-o por completo, transformando as áreas em um Ateliê de pintura e modelagem de barro. A liberdade oferecida por Nise e sua equipe aos “clientes”, possibilitou que grandes obras primas nascessem do consciente de todos que participavam do grupo de atividade ocupacional.

Roberto, que também assina o roteiro, conduz suavemente o expectador a outras histórias. Os pacientes aos poucos vão ganhando espaço e voz, o ator Claudio Jaborandy interpreta Emygdio de Barros um dos primeiros a retornar ao lar após o tratamento com Nise, Simone Mazzer emociona com sua Adelina Gomes e o jovem Raphael, papel de Bernardo Marinho, embala a trama com sua paixonite pela estagiária Marta, personagem de Georgiana Góes.

O Cinema nacional reconhecido pelo humor, nunca perdeu sua majestade para os grandes dramas. Desde o cinema novo inspirado no neo realismo italiano, com o belíssimo Vidas secas, uma de suas maiores representatividades, até o recém indicado ao Oscar, Que horas ela volta?, temos um arsenal de obras cinematográficas que emocionam e curam ressacas, ressacas do tipo existencial como a proposta por Roberto ao contar a saga de Nise. Como bem diz o subtítulo do filme, O coração da loucura.