Que horas ela volta?

Por Willian Bongiolo Gomes

Sinopse: A pernambucana Val se mudou para São Paulo a fim de dar melhores condições de vida para sua filha Jéssica. Com muito receio, ela deixou a menina no interior de Pernambuco para ser babá de Fabinho, morando integralmente na casa de seus patrões. Treze anos depois, quando o menino vai prestar vestibular, Jéssica lhe telefona, pedindo ajuda para ir à São Paulo, no intuito de prestar a mesma prova. Os chefes de Val recebem a menina de braços abertos, só que quando ela deixa de seguir certo protocolo, circulando livremente, como não deveria, a situação se complica.

Não se deixe levar pelo estereótipo que a Regina Casé nos apresenta com o programa Esquenta, a mesma nesse filme nos entrega uma atuação impecável desde a primeira cena até a última e não é por menos que Que horas ela volta? foi indicado pelo Brasil para buscar uma vaga na disputa pela estatueta. O filme é sensível do começo ao fim com suas simbologias e metáforas que se destacam em camadas extremamente importantes para nossa sociedade atual, mas o mais incrível do filme é que, abertamente, ele é uma crítica direta e pontual e pra isso não precisa descascar camada nenhuma. Com a câmera quase sempre estática e em uma sensação de prisão, mesmo estando em uma casa muito grande, nos sentimos incomodados com ordens e desordens dos patrões para Val: “Val pega uma água pra mim”, “Val pode tirar a mesa”, “Val me traz um sorvete” para alguns pode parecer surreal, mas existe esse tipo de coisa e o que falar da célebre e tão conhecida frase “Já é PRATICAMENTE da família”, pois é gente – PRATICAMENTE – ou seja, ela é da família, mas dorme, faz suas necessidades e come em lugares diferentes do nosso e o mais assustador é saber que a Val acha tudo isso normal, se acha inferior a seus patrões e é no momento que sua filha Jéssica aparece no filme que tudo isso é colocado em cheque.

Camila Márdila também merece destaque por sua atuação como Jéssica, a personagem é a representação desse jovem Brasil que acordou diante de preconceitos, injurias, corrupção e que quer um país justo e com direitos iguais para todos e todas. Chegando a casa dos patrões de sua mãe ela não se sente nenhum pouco acanhada de colocar toda submissão em cheque. Briga, pega coisas, se intromete e em certo momento você vai até acha-la metida e mimada, porém não é nada disso… Simplesmente ela não se sente diferente daquelas pessoas, e quer colocar as crenças das mesmas na mesa para ver como estão sendo preconceituosas mesmo sem saber.

Por fim o filme é carregado de drama e comédia, várias situações o espectador até ri e sente também um desconforto por estar rindo de determinada situação, mas tudo faz parte da mensagem que o filme quer passar para todos e isso requer que seja um filme em tom leve. Outro grande mérito do filme é que ele não nos entrega um vilão e sim pessoas que foram criadas em uma determinada sociedade (classe social) que detém tal comportamento já impregnado em suas mentes, o filme apenas te dá à oportunidade de abri-las para novos aprendizados. Nunca é tarde para mudar. “Não me acho superior, mas também não sou inferior”.

Filme dirigido e roteirizado por Anna Muylaert.

Nota 10/10.