“Mãe só há uma”, ou as voltas que a vida dá

Por Cláudia Dezorzi

Há um trecho de um poema do Shakespeare que ficou famoso há alguns anos na internet, que diz assim: “Um dia você aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha”.

Crescer é isso. É descobrir de quem herdamos nosso nariz, nossa insegurança, nosso temperamento difícil, nosso jeito de dormir… nossa forma de sorrir com os olhos…

Lembrei muito disso ao assistir ao último filme da Anna Muylaert, “Mãe só há uma”. Não… ao contrário do que o título sugere, o longa não fala sobre maternidade – mesmo contando com o peso de uma história que permite discussões tão profundas a respeito do que é ou não ser mãe.

O caso de Pedrinho, o menino que, 17 anos depois de ter sido roubado de uma maternidade em Brasília foi encontrado pela família biológica, inspirou em partes a construção de um roteiro que, acertadamente, trata de bem mais do que essa história. Trata sobre identidade, e sobre as referências através das quais construímos nossa própria imagem e personalidade.

Na película, Pedro se chama Pierre. Adolescente, com um pai que faleceu cedo, e morando com a mãe e a irmã, Pierre está em processo de descoberta da sua sexualidade. Acompanhamos suas experimentações na transexualidade em frente ao espelho do banheiro, único local onde se permite ser ele mesmo. E seus questionamentos interiores se tornam ainda maiores no momento em que ele descobre que sua mãe não é sua mãe, que sua irmã não é sua irmã, e que sua história de vida não é bem aquela que ele sempre conheceu.

Imagine-se a si mesmo descobrindo que seu sorriso não veio da sua mãe. Que seus cabelos pretos não vêm do seu pai. Que seu gosto por artes, ou matemática, não tem nada a ver com os estímulos que você recebeu durante a vida.

Se se descobrir gay, bissexual, transexual, já parece difícil a alguém bem resolvido com sua identidade e com total apoio da família, é fácil prever a tempestade de sentimentos que se aproxima pra este jovem ao ter que enfrentar o desafio de conhecer uma nova mãe, um novo pai, um novo irmão, uma nova casa, e ter que reconstruir do zero seu novo espaço no mundo.

Por falar em espaço, vale ressaltar que Anna Muylaert é uma especialista em explorá-los. De tão significativos em seus filmes, os ambientes passam a também contar a história, a nos mostrar a cara ou o momento de vida dos personagens. Foi assim em “É proibido fumar”, onde a casa da protagonista revela alguém apegado ao passado. Foi assim também em “Que horas ela volta”, onde a cozinha e a piscina são os lugares que fazem explodir um conflito latente, mas até então abafado. E é assim também em “Mãe só há uma”, onde somos de repente jogados junto com Pierre em seu novo quarto, um espaço sem nenhuma decoração ou personalidade.

O jantar em que o garoto conhece sua nova família também é uma dessas cenas nas quais o espaço contribui para nos fazer entender o sufoco da situação. Embora os pais até tentem tornar o encontro mais agradável, é em uma mesa apertadinha em um canto do restaurante que a nova família tem a primeira oportunidade de tentar encaixar Pierre (a quem o pai chama insistentemente pelo nome que havia imaginado para seu filho) em seu universo. Mas acontece que o menino que a família quer desesperada e rapidamente reconhecer como filho, é alguém que ainda nem reconhece a si próprio.

Talvez por isso, passar a morar com a nova família seja o gatilho que o personagem precisa para, em contraste com a experimentação silenciosa que vinha vivendo até então, se libertar de todas as amarras que o prendem e assumir sua sexualidade. E é simbólico que quanto mais se sinta pressionado pelas imposições de seu novo pai conservador e de sua nova mãe onipresente, mais ele sinta coragem de se afirmar e expressar sua verdadeira identidade.

A atuação de Matheus Naschtergaele é, como sempre, uma força da natureza. Nos faz enxergar a situação como especialmente dolorosa para ambos os lados. Um filho tirado da mãe que sempre teve para ser inserido em uma nova família… e um pai que durante tantos anos idealizou um filho que não conheceu, e que quando finalmente o tem por perto, descobre não ter acertado em nenhuma de suas projeções.

Se essa receita tem tudo pra ser de tragédia, temos como consolo um final tocante e cheio de ternura, que nos mostra que, mesmo quando tudo parece desmoronar em nossas vidas, ainda assim, com cada problema temos a chance de aprender algo valioso.

No fundo, no fundo, Shakespeare estava certo. Viver é uma eterna construção, e mesmo depois de maduros, não há um dia em que não estejamos, todos nós, tentando entender, encontrar, e reafirmar a nós mesmos e a nossa própria identidade.

Trailer: