Cinema: Detroit em Rebelião

Por Evilmar Almeida

Kathryn Bigelow é uma diretora que gosta de arriscar e pegar temas fortes para transformar em filmes. Venceu o Oscar de Melhor Filme com Guerra ao Terror que acompanhava o dia a dia de uma equipe de soldados americanos no qual desarmavam bombas na guerra do Iraque. Em A Hora Mais Escura, acompanhamos a personagem de Jessica Chastain na caçada ao homem mais procurado do mundo, Osama bin Laden. Aqui em Detroit em Rebelião, ela mostra um pouco dos protestos da população negra contra a violência policial que aconteceu na cidade no ano de 1967.

Detroit em Rebelião é baseado em fatos reais e mostra de maneira forte e revoltante a violência policial e o preconceito voltado para a população negra. A cidade viveu cinco dias de caos, com saques, mortos, feridos e muitas prisões. Esse assunto é muito maior do que se imagina e mostrar todo o ocorrido em um filme de pouco mais de duas horas é impossível. Bigelow acerta ao iniciar o filme com uma animação e fazendo uma introdução do assunto, assim ela consegue direcionar seu filme para a parte principal, em que acompanhamos toda uma sequência longa, perturbadora e tensa em um Motel que era habitado em sua maioria por negros e é lá que se passa a melhor parte do seu filme.

O estilo filmado de maneira quase documental por Bigelow em Guerra ao Terror está de volta em Detroit em Rebelião. Sua câmera tremida nos coloca mais dentro do filme ainda, porque o filme inteiro é feito de maneira intensa. De maneira mais de perto, acompanhamos o policial Krauss (Will Poulter, aquele garotinho chato que tínhamos visto em As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada), ele se mostra totalmente tomado pelo preconceito e um abuso de violência que revolta o espectador. O músico Larry (Algee Smith), que após perder a chance de se apresentar com a sua banda e tentar o estrelato, se vê nesse motel e acaba sofrendo essa noite de horror, em companhia também do segurança Dismukes (o talentoso John Boyega) que por ter um bom relacionamento com policiais acaba estando presente e vendo tudo o que eles cometeram nesta noite de barbárie.

O recorte que Bigelow fez na história foi muito bem adaptado. Logicamente que uma geral em todo o ocorrido poderia ser mais bem aproveitada em um documentário de mais horas. A diretora acerta ao mesclar suas cenas filmadas com imagens da época do incidente, ou fotos que mostravam o que tinha acontecido. O filme é carregado por uma trilha sonora tensa e em alguns momentos o terror causado pelos policiais contrasta com a música cantada por Larry e todo o drama vivido pelos personagens em sequências emocionantes.

Kathryn Bigelow nos entrega um filme com um acontecimento antigo, mas que possui uma história muito atual. Lendo a sinopse do filme e acompanhando as falas de alguns personagens sabemos que estamos no ano de 1967. Mas se em nenhum momento nos fosse informado o ano, o filme se encaixaria perfeitamente nos dias atuais. O preconceito no mundo ainda é forte e o abuso de violência policial ainda existe. E o que nos deixa mais triste é saber que dos acontecimentos em Detroit até os dias de hoje já se passaram 50 anos. No entanto, praticamente nada mudou. Nada.

Detroit, 2017. Direção: Kathryn Bigelow. Com: John Boyega, Will Poulter, Algee Smith, Jacob Latimore, Jason Mitchell, Hannah Murray, Jack Reynor, Kaitlyn Dever, Ben O’Toole, John Krasinski, Anthonu Mackie, Tyler James Williams, Malcolm David Kelley. 143 Min. Drama.