Análise Shaolin do Sertão

Por Rafael Cunha

Ao estrear, Shaolin do Sertão permaneceu durante suas primeiras semanas, lotando as principais salas de cinema do estado do Ceará. As ações com a equipe de produção e atores que percorreu diversos shoppings apresentando o longa foi certeira para tornar o filme conhecido do público e claro, gerar mídia orgânica que contribuíram muito para que as filas para as sessões do filme aumentassem de forma a provocar, segundo o diretor Halder Gomes em seu facebook, o nascimento de um novo clássico para o cinema cearense. Ele exagerou? Claro. Mas não mentiu, um filme com o público de meio milhão de expectadores não pode passar deslizando pela história do audiovisual do nosso estado, porém, Shaolin do Sertão é um filme tecnicamente ruim, com um roteiro cansado e interpretações de causar vergonha alheia.

Existe uma ideia brilhante ali, o argumento funciona muito bem, a trajetória do herói é inquestionável, o problema é a fórmula que já havia sido utilizada pelo Helder em seu outro filme, Cine Holliudy. Talvez, se o diretor não reutilizasse Edmilson Filho como protagonista, o filme funcionasse melhor, sem as atuações que beiram o amadorismo de Edmilson, e provocam no lugar da graça a vergonha alheia. Ao lado de Bruna Hamú, que interpreta a mocinha da história, a diferença de profissionalismo entre os dois, enquanto ela esbanja qualidade de interpretação, Edmilson grita ou soletra suas piadas prontas. Algumas cenas parecem inacreditáveis por terem ido para o corte final do filme.

O roteiro longo desnecessariamente, principalmente no último ato, parece ter sido escrito com a ideia central de apresentar a maior quantidade de situações que causassem graça aos expectadores, e nesta tentativa exagerada de criar gorduras ocasionou uma lotação pitorescas de cenas desnecessárias, afinal, as cenas com o apresentador João Inácio Jr, poderiam desaparecer do longa, sem custo algum para a compreensão da história. E tão pouco as cenas com o bêbado da cidade, com a Camila Ucker e até algumas com o Falcão, que mesmo realizando um trabalho a nos convencer de sua atuação, em alguns momentos peca pela piadas sem graça do roteiro. Diferente dos ótimos e pontuais momentos que estão em tela, Haroldo Guimarães que, realmente, consegue provocar gargalhadas, Marcos Veras, que mesmo exagerando no papel do macho alfa, pontua com cuidado sua presença e a dupla Fafy Siqueira e Cláudio Jaborandy sempre ótimos, mesmo rodeados de não atores.

Shaolin do Sertão trás um vocabulário escrachado cearense do interior do estado ampliado a mil, todo mundo parece exagerado, escrachado e  caricato. Os personagens criados, e não são poucos, surgem em cena apenas para fazer caras e bocas, para aparecer e dizer que esta presente, que faz parte, que contribuiu, que ajudou a “acangalhar” o negócio. E se “acangalhar” é o melhor termo para estabelecer um vínculo da necessidade de Shaolin do Sertão na história do cinema cearense, com toda e aceitável dedicação de Helder em produzir um filme, torço com muita energia positiva para que seus próximos trabalhos não sejam apelativos da fórmula já cansada, que algo novo apareça, que ele consiga realmente fazer um filme, que além de filas e salas lotadas, tenha um motivo de existência, no mínimo, tenha qualidade, o cinema nacional merece.